A impermeabilização asfáltica no caminho da arquitetura

ARQUITETA ESPECIALISTA EM IMPERMEABILIZAÇÃO ASFÁLTICA FALA SOBRE O MERCADO E CONTA UM POUCO DE SUA TRAJETÓRIA

POR ROBERTA CIVITARESE

s vezes miramos em um pon­to e de uma for­ma talvez inimag­i­na­da acer­ta­mos out­ro, muito mais encan­ta­dor. Foi o que acon­te­ceu com a arquite­ta Flávia Bal­di­ni. For­ma­da pela Uni­ver­si­dade Estad­ual de Mar­ingá, com MBA em Mar­ket­ing pela FGV, ela escol­heu o cur­so foca­da na área de dec­o­ração e chegou a tra­bal­har em escritório de arquite­tu­ra por um tem­po… Mas acabou se sur­preen­den­do com a paixão que desen­volveu por out­ra área, a de imper­me­abi­liza­ção asfálti­ca. Emb­o­ra não seja tão comum falar sobre o assun­to, a uti­liza­ção desse pro­ced­i­men­to é vital em uma série de pro­je­tos, des­de hidrelétri­c­as a pré­dios res­i­den­ci­ais, pas­san­do por pontes, reser­vatórios de água e várias out­ras obras que depen­dem de imper­me­abi­liza­ção para serem seguras.

   Não raro as descober­tas das deman­das e carên­cias do mer­ca­do de tra­bal­ho mostram-se com mais força depois de ter­mi­na­da a fac­ul­dade, e na Arquite­tu­ra não é difer­ente. Faz­er bom uso das infor­mações e aproveitar as opor­tu­nidades pode deter­mi­nar o lim­ite entre “ser mais um” e ser um profis­sion­al com um difer­en­cial na sua área. Em entre­vista à Revista Dell Ambi­ente, a arquite­ta Flávia Bal­di­ni fala sobre essa bus­ca pelo difer­en­cial, o que a con­duz­iu para uma área curiosa­mente pouco divul­ga­da.  

REVISTA DELL AMBIENTESeu currículo é rico em experiências, inclusive fora do Brasil. Fale um pouco sobre esses projetos.

FLÁVIA BALDINI: É incrív­el como a Arquite­tu­ra pode abrir por­tas, mas da mes­ma for­ma é assus­ta­do­ra­mente incrív­el como a fac­ul­dade não mostra todas as opções disponíveis para quem decide seguir essa car­reira.

   Entrei para a fac­ul­dade de arquite­tu­ra, pois ado­ra­va a parte de dec­o­ração, mobil­iar ambi­entes, escol­her acaba­men­tos e ilu­mi­nação, itens que me agra­davam des­de cri­ança. Porém, durante a fac­ul­dade, perce­bi que era boa em Topografia, me tornei mon­i­to­ra de Con­for­to Ambi­en­tal para a Engen­haria Civ­il, fiz PIC [Pro­gra­ma de Ini­ci­ação Cien­tí­fi­ca] em Urban­is­mo e Pais­ag­is­mo e estagiei em escritórios de pro­je­tos pre­dom­i­nan­te­mente res­i­den­ci­ais.

   Pos­so diz­er que fiz um pouco de tudo e exper­i­mentei de diver­sas for­mas as difer­entes atu­ações da Arquite­tu­ra. Após a fac­ul­dade, eu tra­bal­hei em um escritório de arquite­tu­ra por quase um ano, mas não me sen­tia feliz, não tin­ha nen­hum con­ta­to com clientes, ape­nas fornece­dores e equipes de obras, e foi nesse momen­to que min­ha irmã me sug­eriu que eu ten­tasse um [proces­so sele­ti­vo para] trainee [quan­do há treina­men­to de um profis­sion­al para uma tare­fa especí­fi­ca den­tro de uma empre­sa]. Prestei duas seleções e pas­sei!

   Fui con­trata­da para desen­volver os mate­ri­ais téc­ni­cos, pesquisas e faz­er atendi­men­to de clientes sobre imper­me­abi­liza­ção. E após alguns meses, pas­sei a faz­er treina­men­to, palestras e acom­pan­hamen­to de algu­mas obras. Tra­bal­hei na área téc­ni­ca de uma empre­sa de quími­cos para con­strução civ­il por 5 anos e hoje estou atuan­do na área com­er­cial, tam­bém na lin­ha de quími­cos para con­strução civ­il, aten­den­do o vare­jo – lojas de mate­r­i­al de con­strução.

   É uma área difer­ente, bas­tante desafi­ado­ra e com muitas novas exper­iên­cias! Hoje vejo que na fac­ul­dade nun­ca me dis­ser­am que pode­ria tra­bal­har em qual­quer empre­sa que forneça mate­r­i­al para a con­strução civ­il, atuan­do na área téc­ni­ca, na área de pesquisa, de atendi­men­to ao cliente ou mes­mo na área com­er­cial, nas quais as pos­si­bil­i­dades são infini­tas!

REVISTA DELL AMBIENTEComo foi a experiência de atuar numa área nova para você, como a de impermeabilização, em empresas de grande porte?

FLÁVIA BALDINIFoi muito bacana e desafi­ador me ver em uma empre­sa na qual o pro­je­to não fazia parte do meu dia-a-dia, pelo menos não pro­je­tos arquitetôni­cos, ape­nas especi­fi­cações de imper­me­abi­liza­ção.

   Apren­di sobre os difer­entes pro­du­tos e sis­temas de imper­me­abi­liza­ção, matérias-pri­mas, pro­du­tos aux­il­iares, vida útil e desem­pen­ho, além de enten­der os difer­entes sis­temas usa­dos pelo país.

   Pude vis­i­tar obras de grande porte como pontes e hidrelétri­c­as, além de subestações e reser­vatórios de água que abaste­ci­am mil­hares de pes­soas, con­domínios e edifí­cios res­i­den­ci­ais e com­er­ci­ais em difer­entes esta­dos do país. Isso me deu a opor­tu­nidade de apren­der com as empre­sas que já atu­avam na área há muitos anos e tam­bém de ensi­nar novas téc­ni­cas e pro­du­tos a ess­es mes­mos apli­cadores.

   Tam­bém perce­bi, fazen­do palestras em fac­ul­dades e cur­sos téc­ni­cos, como nos­so sis­tema de ensi­no está defasa­do nes­ta área, colo­can­do no mer­ca­do profis­sion­ais com pouco ou nen­hum con­hec­i­men­to sobre um assun­to tão bási­co e mile­nar como a imper­me­abi­liza­ção. Sim, ouso diz­er mile­nar, pois imper­me­abi­liza­ção é cita­da na bíblia quan­do se fala da arca de Noé.

   A pro­va de que isso não é bom é a quan­ti­dade de patolo­gias que vemos em prati­ca­mente todas as con­struções dos últi­mos anos, prin­ci­pal­mente aque­las em que vemos a neg­ligên­cia na imper­me­abi­liza­ção pelas man­chas nos acaba­men­tos, nas tin­tas descas­cadas, nos rebo­cos cain­do, nas lajes trin­cadas e pin­gan­do e nos rodapés soltan­do, muito comum na maio­r­ia das con­struções do país.

REVISTA DELL AMBIENTEAo se tornar palestrante você passou a ter também uma visão mais ampla do mercado. É importante dividir esse conhecimento?

FLÁVIA BALDINIDividir con­hec­i­men­to não é ape­nas impor­tante como necessário! Hoje em dia, a fal­ta de infor­mação é a grande respon­sáv­el pelos erros e patolo­gias que encon­tramos nas diver­sas con­struções pelo país. Acred­i­to ser impor­tante você pelo menos apre­sen­tar aos profis­sion­ais da área as novas soluções, sis­temas e pro­du­tos e ensi­nar como uti­lizar os ‘anti­gos pro­du­tos’ da for­ma e no con­sumo cor­re­tos. A mania de ‘econo­mia’ faz com que as pes­soas gastem três vezes mais com imper­me­abi­liza­ção cor­rigin­do ou ten­tan­do cor­ri­gir as patolo­gias que surgem depois de poucos anos, ou até mes­mo meses, após a con­strução do imóv­el. Se as pes­soas soubessem como evi­tar de for­ma efi­ciente e cor­re­ta os prob­le­mas com a fal­ta de imper­me­abi­liza­ção, gas­tari­am sig­ni­fica­ti­va­mente menos com refaz­i­men­tos.

REVISTA DELL AMBIENTEO que a realiza mais, trabalhar na rotina interna de empresas ou diretamente com os clientes?

FLÁVIA BALDINICon­fes­so que gos­to da fal­ta de roti­na. Mes­mo quan­do come­cei inter­na­mente na empre­sa, eu não tin­ha uma roti­na de tra­bal­ho maçante, eu esta­va sem­pre lá, porém com ativi­dades que rara­mente se repeti­am sis­tem­ati­ca­mente. Quan­do me tornei exter­na, eu me apaixonei de vez! Dar treina­men­tos, palestras, vis­i­tar obras e acom­pan­har clientes me fazia estar sem­pre empol­ga­da e ansian­do por con­hec­i­men­to. Sair do hotel às 6h e chegar às 23h, depois de rodar 3 cidades em um só dia e faz­er pelo menos 3 treina­men­tos, era cansati­vo mas bas­tante grat­i­f­i­cante, me sen­tia real­iza­da!

   Era engraça­do quan­do engen­heiros e pedreiros me viam chegan­do nas obras ou salas de treina­men­tos, uma mul­her baix­in­ha, às vezes até com cara de cri­ança, que usa­va maquiagem, salto e uma monte de badu­laques e tin­ha que explicar a pes­soas que tin­ham idade para serem meu pai ou mãe que o que eles fazi­am não esta­va com­ple­ta­mente cer­to ou que pode­ri­am faz­er de uma for­ma mais sim­ples. Mas quan­do eu acen­dia o maçari­co para aplicar uma man­ta asfálti­ca ou pega­va uma furadeira e mis­tu­ra­va os pro­du­tos antes de aplicar, eles pas­savam a con­fi­ar em mim e a me dar ouvi­dos de fato!

   Hoje atuo na área com­er­cial, amo o con­ta­to com os clientes, com pes­soas, com apli­cadores e está sendo desafi­ador apren­der como nego­ciar e de fato diminuir meu per­fil téc­ni­co e ser mais sim­ples, dire­ta e práti­ca, de modo a não usar ter­mos tão téc­ni­cos com pes­soas que não tra­bal­ham dire­ta­mente na área da con­strução civ­il. Estou ado­ran­do esse novo desafio.